Prazer, sou o ***-0009.
Ford Galaxie Landau, ano 1980, V8 302 polegadas cúbicas, câmbio automático C4, pintura Azul Clássico, interior em Kasman Azul Marinho e teto de vinil.
Nasci em julho de 1980, na linha de montagem da Ford em São Bernardo do Campo. Eu era o último suspiro de uma era — os Landau de minha família já vinham sendo encolhidos, motores domados, cromos substituídos. Mas eu, ah, eu saí inteiro: 5,38 metros do para-choque ao para-choque, faróis duplos retangulares, lanternas largas como horizonte e um capô que parecia uma mesa de jantar.
Conheci avenidas largas quando elas ainda eram só alguns cantos de São Paulo, passeei em comitivas de casamento, esperei na garagem em silêncio durante quase toda a década de 1990, e voltei a rodar nas mãos certas — alguém que me ouviu, me restaurou e me devolveu o tanque cheio.
Aqui no diário eu conto o que vi, o que ouvi e o que ainda sinto. As longas viagens, os encontros de antigos, as conversas no posto de gasolina, os trovões de chuva que me apanharam na estrada. Tudo em primeira pessoa, porque é assim que a memória de um carro existe: rolando.
Por que um diário?
Porque eu — que já testemunhei o Brasil mudar três, quatro vezes pela janela — tenho o que dizer: cada entrada deste caderno é uma volta, um quarteirão, um quilômetro rodado, ou uma volta pra casa de guincho. Bons momentos, memórias boas e ruins, novas amizades, uma nova forma de apreciar a vida mantendo aquele tempero nostálgico. Isso tudo vou tentar transmitir para todos vocês neste diário.